Há um ano e três meses em Pemba, extremo norte de Moçambique na África, Pe. Salvador, filho desta paróquia, foi o primeiro padre do Projeto Regional Sul 1 do estado de São Paulo que assumiu a missão em terras africanas. Ele retornou ao Brasil no último mês, nos visitou e presidiu uma missa no último dia 17 de julho na Capela São Sebastião. Atencioso e de forma gentil recebeu a PASCOM para uma conversa sobre a Missão a qual foi chamado a Servir!

“Sai do Brasil em 2 de fevereiro de 2017 – dia da festa da apresentação do senhor – festa da luz, dia providencial para minha partida, depois de regularizar toda documentação para minha ida à Missão. Antes, me preparei de diversas formas, tomei conhecimento sobre o trabalho lá e sobre o lugar, fiz um curso de preparação, foi um mês convivendo com um grupo no Centro Cultural de Brasília, para entender a rotina e o que se exige da Missão de “gente” em outros países”.

 

“Naquele momento eu também me apresentava à um outro povo, em um outro continente, à uma nova cultura, movido sobretudo pela fé que me fez chegar neste lugar com espírito missionário e com desejo de testemunhar experiência de Deus. Fui muito bem acolhido pelos brasileiros que já estavam lá e que com alegria me receberam,  eu era mais um membro que somaria ao trabalho desenvolvido naquelas terras”.

O bispo de Pemba em Moçambique onde Pe. Salvador está em Missão é um brasileiro que atuou boa parte de sua vida na Diocese de Osasco na grande São Paulo, quando ainda era padre. Dom Luís Fernando Lisboa da Congregação dos Padres Passionistas foi o segundo bispo nomeado por Papa Francisco logo após assumir o pontificado em meados de 2013.

 

“As motivações para minha partida surgiram ao longo da minha trajetória na vida, muito cedo, os 14 anos de idade saí da casa de meus pais em Pilão Arcato na Bahia e vim para Guarulhos. Algumas experiências de missão popular marcaram minha vida de fé”. O padre narra uma dessas missões em particular promovida pelas irmãs Operárias da Santa Casa de Nazaré na região dos bairros Soberana e Fortaleza. “Depois, como seminarista e já como padre, vivi muitas realidades em paróquias distintas em regiões diferentes da cidade. A vida me preparou para esse movimento constante de sair, de me desprender e estar a caminho, isso me preparou para essa decisão de sair para mais longe e para um lugar diferente de tudo que já vivi”.

 

“Ao chegar, percebi logo a ‘outra cosmovisão de mundo’ que tanto ouvi durante minha preparação, isso serviu para que eu não me assustasse com os hábitos, as tradições e o jeito das pessoas se comportarem, apesar de muito alegres, mesmo com as dificuldades que passam, eles tem um modo muito próprio, diferente em tudo do jeito ocidental de ser, mesmo assim, eu fui certo de que não poderia impor nada à eles, é preciso propor na humilde e entender que você é hóspede e que não está lá só para ensinar, mas também para aprender com eles”.

Na província Cabo Delgado (aqui é o que a gente conhece como Estado) em que Pemba (que seria o Município) está localizada ao extremo norte do País – Moçambique –  há cerca de  seis dialetos, ou seja, seis sotaques e formas próprias de se comunicar, além da língua oficial que é o português de Portugal, diferente do que falamos aqui no Brasil. Considerada a terceira maior Bahia do mundo, boa parte da população vive da pesca e principalmente da roça (chamada de machamba).

Apesar disso, Pe. Salvador descreve a realidade local: “A fome é uma realidade diária. Você convive com pessoas que só se alimentam uma única vez por dia, basicamente de pirão de milho moído (chamado de chima) que é o prato principal lá, eles plantam além do milho, a mandioca e a abóbora principalmente… em épocas de boa colheita a manga e a mandioca seca é que mata a fome das crianças que sofrem de desnutrição… A fome é o maior desafio, ela acarreta outros índices alarmantes em saúde e educação”.

 

“Há quem diga que o país está atrasado 50 anos no índice de desenvolvimento humano que é baixíssimo, muitas doenças assolam o povo que não tem acesso á água e esgoto encanados. Há muitas vítimas da AIDS, crianças órfãs, surtos de malária…  Apesar dos desafios e das dificuldades é necessário aprender a não se esquecer o motivo pelo qual você ali está, mesmo com saudades da família, dos amigos, do seu lugar, da sua forma de rezar, é por uma causa maior que você ali está, aos poucos estabeleci laços importantes lá”.

Indagado sobre se ele acredita cativar outros missionários na Diocese de Guarulhos para missão semelhante ele afirma: “Acredito que meu retorno foi muito providencial, fui convidado para partilhar essa experiência em algumas de nossas paróquias, participei pela primeira vez da assembleia dos bispos do estado de São Paulo e ouvi muita coisa bonita deles, percorri outras Dioceses como Presidente Prudente no interior do estado e Criciúma em Santa Catarina…”

“Acredito que fui transformado enquanto homem, padre e como ser humano, minha visão se remodelou, sinto que qualquer pessoa que vá fazer algo parecido, mesmo que não seja religioso, alguma ação humanitária, muda a pessoa completamente, diante da vulnerabilidade das pessoas vemos e que mesmo assim eles não felizes, alegres, sorridentes, isso nos torna pessoas melhores!”

 

“Boa parte dos nativos são da religião islâmica, mas o número de cristãos – católicos cresce, apesar de o Cristianismo ser minoria naquela região. Os nativos querem aprender, ouvir, sentir a presença de Deus, conhecer o evangelho de Jesus Cristo, para muitos é o primeiro anúncio de Cristo, para que isso aconteça eles andam dois dias para assistir á uma missa, ouvem atentamente e se encantam a cada dia com essa proposta Cristã de vida”.

 

“Nossa catequese passa antes por questões sociais, sem desrespeitar costumes, propomos espaço para que as mulheres falem, elas são muito menosprezadas pela sociedade, um zelo maior pela criança que trabalha desde muito cedo, todas essas questões são evangelizar e catequisar, sempre com muita paciência e respeito”.

 

“Quero deixar claro que não sou um propagador de desgraças, muito pelo contrário, é muito bonito ver aquelas pessoas reunidas, com uma fé ativa, que mantém a comunidade do jeito deles em lugares longes, onde nem mesmo de carro ou moto é possível chegar e mesmo assim rezam o terço, proclamam a palavra, fazem festa quando algum de nós chega, porque para eles é como se um representante de Deus tivesse chegado ali e eles não estão mais sozinhos, são gente simples e muito sensível, eles vêm sinais de Deus na natureza, através de um sorriso. Isso serve muitas vezes pra nós que temos tanto e murmuramos muito”.

 

“Para mim o mais gratificante é poder chegar em lugares talvez nunca acessados por alguém que não seja dali e surpreendentemente ser sempre recebido com um sorriso de alegria. Como padre e missionário brasileiro é bom sentir a sentir a abertura e a gratidão dos nativos por nós brasileiros”.

 

“Quando a gente é tocado, a gente consegue tocar. O Testemunho é um carimbo, um passaporte para que possamos transformar na fé”.

Entrevista concedida em 17/07/18 à Marcela Vasconcelos na Capela São Sebastião durante a passagem do Sacerdote ao Brasil.

Fotos por André Alves

Pascom – St. Alberto Magno e Ns. Senhora das Graças